domingo, 16 de abril de 2023

Cão

Mais um cachorro abandonado...

Na Vila dos Pinheiros, no coração da Maré, vivia um cachorro abandonado. Ele vagava pelas ruas sujas e esburacadas, procurando comida e abrigo. Todos os dias, ele via a movimentação na boca de fumo da esquina, onde traficantes entravam e saíam o tempo todo.

Certo dia, o cachorro decidiu se aproximar da boca de fumo e ganhou a atenção dos traficantes. Eles o alimentaram e o adotaram como mascote. O cachorro gostou de ficar na boca de fumo, sentindo-se protegido e amado pelos traficantes.

Um dia, a guerra entre facções rivais eclodiu na Maré. Houve tiroteio e muitos traficantes foram mortos, incluindo um dos que adotou o cachorro. O animal ficou confuso e triste, sem entender o que estava acontecendo.

Enquanto o cachorro se lamentava ao lado do corpo do traficante morto, este começou a falar com ele. O homem falou sobre a brevidade da vida e como ele nunca imaginou que morreria tão jovem. Ele pediu desculpas ao cachorro por ter vivido uma vida tão perigosa e por não ter cuidado melhor dele.

O cachorro olhava para o traficante e abanava o rabo, como se entendesse tudo o que estava sendo dito. Quando o homem finalmente parou de falar, o cachorro se deitou ao seu lado, lambendo seu rosto como se quisesse confortá-lo.

Os moradores da Vila dos Pinheiros nunca esqueceram a cena emocionante daquele cachorro e do traficante morto, conversando na rua em meio ao tiroteio. Para eles, foi uma prova de que até mesmo os mais duros e insensíveis traficantes da Maré podiam ter um coração.



Conto da lua

Lua Lua

Era uma vez uma cadela siamesa chamada Lua, que vivia nas ruas da Vila dos Pinheiros, no bairro da Maré, no Rio de Janeiro. Ela sempre buscava um canto para dormir e se alimentar, mas nunca se sentia segura naquelas ruas violentas.


Certo dia, Lua foi adotada por traficantes de uma boca de fumo. Ela ganhou um cantinho quente e comida regular, mas sua liberdade foi totalmente restrita. Ela passou a ser vigiada o tempo todo e apanhava quando latia demais.

Porém, Lua era inteligente e percebia tudo o que acontecia naquele ambiente. Ela ouvia conversas sobre a polícia, sobre a vida dos traficantes e até sobre a morte. E foi num desses momentos que ela se conectou profundamente com um dos traficantes, chamado André.

André era o braço direito do chefe do tráfico daquela área. Ele era respeitado pelos outros traficantes e pela população local. Mas a vida que ele levava era arriscada e Lua sentia isso em seu olhar cansado.

Numa tarde de tiroteio, André foi atingido por uma bala perdida e caiu no chão. Lua correu para perto dele, e em seus olhos ela viu o medo e a tristeza daquele homem. Ele sabia que sua vida estava chegando ao fim.

Enquanto André se debatia no chão, Lua se aproximou e apoiou a cabeça em sua mão. Ele olhou para ela e começou a falar, como se ela pudesse entender suas palavras.

"Lua, minha amiga, você sabe que eu sempre quis ter uma vida diferente. Eu queria estudar, ter uma profissão, mas a vida me levou para esse caminho. E agora, veja só, estou aqui, morrendo em meio a essa violência."

Lua olhava para ele, atenta, como se pudesse entender cada palavra.

"Eu sempre soube que essa vida seria breve, mas nunca imaginei que seria tão curta assim. Não quero que você passe por isso, Lua. Você merece mais do que isso. Prometa-me que vai escapar daqui e viver uma vida melhor."

Lua lambeu sua mão, como se estivesse fazendo um juramento. André suspirou e fechou os olhos, enquanto sua vida se esvaía.

Lua ficou ali, ao seu lado, durante toda a noite. Ela sabia que André havia partido para sempre, mas sentia em seu coração que ele agora estava em paz. E ela também se sentia em paz, pois sabia que precisava fugir dali e viver uma vida melhor, como havia prometido a seu amigo.