sábado, 26 de setembro de 2020

Esquizofrênico

Esquizofrênico

Suma 
com uma que já existiu em minha cabeça.
Assuma 
uma que já existiu em minha cabeça.
Assunta
sobre uma que já existiu em minha cabeça.
Afronta
uma que já existiu em minha cabeça.
Açoita
uma que já existiu em minha cabeça.
Adote
uma que já existiu em minha cabeça.
Há sorte
uma que já existiu em minha cabeça.
Há norte
em uma que já existiu em minha cabeça.
É forte
uma que já existiu em minha cabeça.
Medéia
era uma que já existiu em minha cabeça.
Ideia
é a que ainda existe em minha cabeça.

Não sei o que existirá em minha cabeça.
Daqui para frente, será.

Poesias

Diálogo além da metalinguística

O Poema perguntou a Poesia:
- Quem criou as melhores coisas do mundo?
- Foram as palavras. Respondeu a Poesia.
-E quem criou as palavras?
- Foram os homens.
- Então, quem nos criou foram os homens?
- Não. Fomos criados pelos poetas.
- E poetas não são homens?
- Não. Os Poetas vão além das generalidades humanas, através das palavras.
Elcio Alves


Descrevendo quem faz

Poeta é o cultivador da linguagem.
É mito é rito.
É verso, é prosa.
Faz do buquê, uma rosa.
Mesmo assim, encanta um coração.

Poeta vê o mundo das montanhas.
Vê o sonho, o inconsciente.
Faz da vida um mar de gente.
Mostra o caminho para a Solução.

O Poeta finge, apanha, é contente,
Muda a vida,
Simplesmente!
Mostra quem tem a razão.

O Poeta ajuda a lembrar,
De quem já se ama,
Ou de quem ainda
Vai se amar.



BETAMETAZONA CORTICÓIDE

O que significa betametazona corticóide?
Hoje eu tive um ataque de tosse...
Será que era para amenizar isso?
Ou era somente mais um teste bioquímico?

Enquanto minha mente viaja na busca do saber,
Meu corpo inveja e me faz adoecer...
Porém, ele será cremado!
Como as bruxas na santa inquisição.

Ufa! Ainda bem que não será agora.
Pois tomei a dosagem certa – eu acho.
Um mililitro a mais e eu teria uma arritimia.
Encerraria as batidas do meu coração.

Não vou voltar à Grécia clássica,
Muito menos as ideias e mundos platônicos.
Também não confio na ciência,
Ela só ameniza minha dor.

Dor? A que deveras sente o poeta?
Não! Não! A dor fisiológica...
É! Esta mesmo!
A dor que me limita de vez em quando.

Não queria saber me analisar,
Mas não consigo me calar.
Aqui reflito sobre meu corpo e mente
Não sinto a dor que deveras sente



Resquícios da escravidão

Eu sinto a dor das chibatadas
Que outros outrora levaram.
Eu me vejo lá, no tronco,
Olhando os céus...
Enquanto tenho as costas dilaceradas.
(não nos isole)
E hoje vivo a mesma época,
Porque não acabou a escravidão
Mas puseram fim a submissão
Hoje o brado é mais retumbante
Do povo que luta pela vitória.
(extinção às chibatadas)
A mãe África já não é a mesma...
Nem Geges, Malês, Bantos...
Ainda ouço muitos aos prantos...
Vendo filhos morrerem exterminados
Pela cultura e contra a cultura imposta.
(nosso axé é a nossa força!)
Querem meu povo misturado a outro povo
Mistura de sofreres, para sofreres...
Extinguir o que temos...
Criminalizar o que somos...
Por isso, meu povo preto, vamos à luta!

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Eu e a inconcretude

Eu e a inconcretude começamos a nos desentender. Acho que estou caminhando a concretude das minhas ações. Isso só o tempo efetivará.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

O Destino e suas ironias

O Destino e suas ironias

A vida é dura! Almir procura por emprego após sair do sistema carcerário. Quer ter outra vida. Já pagou a sua pena. Já sofreu o que tinha que sofrer no confinamento. Entendeu que o crime só compensa para os ricos. Os fracos não têm vez. O ex-presidiário que nunca fora sua profissão oficial procura por uma vaga de motorista. Pleitea um cargo em uma empresa para se ocupar e fazer o bem. Porém, em todas as entrevistas, recebe um não. Este homem carrega o estigma de ter antecedentes. Assaltou. Seu cúmplice acabou matando a vítima e correu. Almir não conseguiu escapar. Foi preso e condenado bem rápido. Conheceu e aprendeu a sobreviver na prisão. Participou de motins, mas não fora punido pelo sistema. Trabalhou costurando bolas de futebol para reduzir a pena. Entrou no semiaberto. Passaram-se sete anos. Conseguiu com o assalto mil e cem reais em dinheiro, uma aliança e uma sentença. Os bens foram entregues ao dono. A sentença foi dada pelo juiz. São lembranças que Almir quer esquecer. Vai trabalhar para receber salário. Não tem mais nada a perder. Sua arma agora é sua habilidade em conduzir um veículo automotivo. Quer respeitar as leis de trânsito. Quer ter esperança na dignidade. Está marcado. Não querem aceitar quem já foi condenado. Almir possui habilitação devidamente legalizada e renovada no órgão competente. É cordial e solícito. Sabe o que faz. Errou no passado. Só quer acertar no presente. Precisa sobreviver. Quer uma chance. Vai fazer a coisa certa dessa vez. Ele promete. Não consegue emprego por conta de seu histórico criminoso. Almir não tem filhos que precisam se alimentar, vestir e se entreter. Seus parentes o ignoram, tanto em relação a pessoa malquista quanto em ajudá-lo financeiramente. Ele acha que eles o temem. Mas não fez mal algum a esses indivíduos. Quer apenas seguir sua vida em liberdade. Após filas, meses e diversas respostas negativas, Almir conseguiu se empregar. Trabalha hoje o total de 8 horas por dia, de segunda a sábado. Não chega atrasado, não comete erros. É um funcionário exemplar. Dirige o carro importado de um  acionista majoritário de uma grande empresa de tecnologia. Leva-o para vários lugares, para lá e para cá. Fica a disposição do seu patrão. Espera-o. Mal sabe ele que esse patrão é envolvido com atos ilícitos. Sua empresa participa de um esquema de lavagem de dinheiro e está sendo monitorado pela Polícia Federal. Certo dia, Almir foi buscar o patrão em um edifício no centro da cidade. Quando o senhor engravatado entrou no carro, a polícia apareceu e deu voz de prisão ao patrão. Almir também foi levado a delegacia, mas foi liberado por falta de provas na participação no crime. Almir perdeu o emprego. Vai se virando para viver. Hoje vende petiscos na porta de uma universidade. Fatura o essencial para sobreviver. Paga dignamente seu aluguel em dia. Sua conta de energia e água. É procurado e conhecido pelos universitários. Conta sua história em liberdade. Espera sempre ser livre.
(Elcio Alves)