O Destino e suas ironias
A vida é dura! Almir procura por emprego após sair do sistema carcerário. Quer ter outra vida. Já pagou a sua pena. Já sofreu o que tinha que sofrer no confinamento. Entendeu que o crime só compensa para os ricos. Os fracos não têm vez. O ex-presidiário que nunca fora sua profissão oficial procura por uma vaga de motorista. Pleitea um cargo em uma empresa para se ocupar e fazer o bem. Porém, em todas as entrevistas, recebe um não. Este homem carrega o estigma de ter antecedentes. Assaltou. Seu cúmplice acabou matando a vítima e correu. Almir não conseguiu escapar. Foi preso e condenado bem rápido. Conheceu e aprendeu a sobreviver na prisão. Participou de motins, mas não fora punido pelo sistema. Trabalhou costurando bolas de futebol para reduzir a pena. Entrou no semiaberto. Passaram-se sete anos. Conseguiu com o assalto mil e cem reais em dinheiro, uma aliança e uma sentença. Os bens foram entregues ao dono. A sentença foi dada pelo juiz. São lembranças que Almir quer esquecer. Vai trabalhar para receber salário. Não tem mais nada a perder. Sua arma agora é sua habilidade em conduzir um veículo automotivo. Quer respeitar as leis de trânsito. Quer ter esperança na dignidade. Está marcado. Não querem aceitar quem já foi condenado. Almir possui habilitação devidamente legalizada e renovada no órgão competente. É cordial e solícito. Sabe o que faz. Errou no passado. Só quer acertar no presente. Precisa sobreviver. Quer uma chance. Vai fazer a coisa certa dessa vez. Ele promete. Não consegue emprego por conta de seu histórico criminoso. Almir não tem filhos que precisam se alimentar, vestir e se entreter. Seus parentes o ignoram, tanto em relação a pessoa malquista quanto em ajudá-lo financeiramente. Ele acha que eles o temem. Mas não fez mal algum a esses indivíduos. Quer apenas seguir sua vida em liberdade. Após filas, meses e diversas respostas negativas, Almir conseguiu se empregar. Trabalha hoje o total de 8 horas por dia, de segunda a sábado. Não chega atrasado, não comete erros. É um funcionário exemplar. Dirige o carro importado de um acionista majoritário de uma grande empresa de tecnologia. Leva-o para vários lugares, para lá e para cá. Fica a disposição do seu patrão. Espera-o. Mal sabe ele que esse patrão é envolvido com atos ilícitos. Sua empresa participa de um esquema de lavagem de dinheiro e está sendo monitorado pela Polícia Federal. Certo dia, Almir foi buscar o patrão em um edifício no centro da cidade. Quando o senhor engravatado entrou no carro, a polícia apareceu e deu voz de prisão ao patrão. Almir também foi levado a delegacia, mas foi liberado por falta de provas na participação no crime. Almir perdeu o emprego. Vai se virando para viver. Hoje vende petiscos na porta de uma universidade. Fatura o essencial para sobreviver. Paga dignamente seu aluguel em dia. Sua conta de energia e água. É procurado e conhecido pelos universitários. Conta sua história em liberdade. Espera sempre ser livre.
(Elcio Alves)
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